Estética da inteligência coletiva

De Socialmedia.wiki.br

O formato do ciberespaço e as possibilidades de comunicação que ele proporciona definem, de certa forma, a estética das obras que o usam como plataforma e matéria prima. Vejamos a seguir algumas características desta estética segundo Lévy (2000):

  • Participação ativa daqueles que lêem a obra, não apenas na interpretação e construção do sentido, mas também na co-produção da obra.
  • Organização de processos de criação coletiva, onde artistas organizados em rede aglutinam vestígios criativos em uma mesma obra;
  • Criação contínua. A obra se reconfigura continuamente. O evento de criação não está mais limitado ao momento da concepção pelo autor, a obra vira uma má-quina de fazer eventos de criação.
  • Obras de leitura e escrita contínua e em tempo real, capazes de conjugar a participação de todos.
  • Interconexão. Obras referem-se umas às outras, pois são compostas a partir de amostras (samples), e permitem-se ser usadas com matéria-prima de outras o-bras.

Todas essas características convergem em direção ao declínio das figuras do autor e da gravação. E são coerentes com o conceito de universal sem totalidade. Este modelo contribui para o desenvolvimento de novas formas de arte e comunicação, onde fica cada vez menos clara a distinção clássica entre emissão e recepção, composição e interpretação.

Surge um novo conceito de Obra Aberta, que vai além da interpretação livre proposta por Umberto Eco (1971). A obra agora está aberta porque é projetada para a reconfiguração contínua, sob interferência de inúmeros co-autores e interconexão com outras obras.

Sua natureza reconfigurável a afasta do conceito de gravação. Não faz sentido congelar e arquivar um momento específico da obra, seria sempre uma configuração incompleta. Ela não é compatível com gêneros artístico como o quadro, a escultura e a fotografia. Os gêneros da cibercultura estão mais próximos da performance ao vivo, das improvisações coletivas e das instalações, pois “acontecem” a todo instante, o que impede qualquer fechamento espaço-temporal.

Vemos um deslocamento do foco criativo, da criação de mensagens para a criação de processos, plataformas, linguagens, redes de criação e imaginação coletiva. O engenheiro de mundos surge como o grande artista do século XXI. Seu trabalho é projetar a ecologia de ambientes onde a criação acontecerá através da participação de outras pessoas. Como não é mais o único responsável pela mensagem, a figura do autor começa a ser repensada.

A noção de autor está ligada a configurações sociais, econômicas e jurídicas específicas, é de se esperar que ela volte para um segundo plano em uma realidade diferente da qual ela é original. O próprio conceito de assinatura remete à escrita e sua cultura totalizante. Seu papel não pode ser o mesmo em uma sociedade com outro paradigma de comunicação.

As artes da cibercultura reencontram as tradições arcaicas do jogo e do ritual. Neles, nem o autor, nem a gravação são importantes, mas antes o ato coletivo aqui e agora. Em sociedades orais, por exemplo, a figura do autor é secundária ou mesmo inexistente. A atenção está mais no intérprete, no cantor, no contador de história, no ator. È o caso dos mitos, rituais e folclores.



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