O Universal sem totalidade

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Para ilustrar a magnitude da transformação pela qual passamos, Pierre Lévy (2000) sugere que retornemos alguns milhares de anos para compará-la com outro momento equivalente ao nosso. A invenção da escrita.

Nas sociedades orais, toda mensagem era transmitida face a face, o que significa que quem recebia a mensagem se encontrava sempre no mesmo contexto de que a emitiu e a evolução da mensagem acontecia pela interação entre os dois lados do processo. Ambos compartilhavam, e construíam em conjunto a experiência da comunicação.

A chegada da escrita inaugurou uma nova modalidade de comunicação, onde emissor e receptor não compartilham mais a mesma experiência. Podem estar separados por tempo e espaço, sem interação direta. Pela primeira vez era possível receber mensagens produzidas em contextos totalmente diferentes, como em outro país, outra época ou outra cultura. E como não é uma tarefa simples compreender uma mensagem fora de seu contexto original, passaram a ser desenvolvidas técnicas para facilitar o processo.

Do lado do receptor desenvolveu-se a arte da interpretação na forma de gramáticas e dicionários, e do lado do emissor passou a existir um esforço para a criação de mensagens interpretáveis sem alteração de sentido pelo maior número possível de pessoas, mensagens universais.

O objetivo de um texto universal é ser totalizante. Manter a mensagem imutável, lutando contra a diversidade das interpretações, ou seja, ele poda a participação do receptor através do fechamento semântico da mensagem, eliminando a sua interação na construção do sentido.

As mídias de massa, imprensa, rádio, cinema, televisão não são mais do que uma continuação do paradigma universal totalizante inaugurado pela escrita. Com o agravante de as mensagens transmitidas por elas se dirigirem a um público muito maior.

O que inicialmente era uma técnica de comunicação foi, com o tempo, incorporado à cultura e deu origem às figuras do autor como autoridade máxima do processo de comunicação; do público, massificado, indiferenciado e totalmente passivo; e da obra universal totalizante que carrega verdades indiscutíveis e agrada a todos.

[editar] A comunicação no Ciberespaço

A emergência do Ciberespaço dissolve este paradigma de comunicação e torna novamente possível o diálogo e a interação na construção do conhecimento. E faz isso sem exigir a sincronia de tempo e espaço da antiguidade, já que a interconexão cria uma nova forma de universal, que não depende mais do fechamento semântico das mensagens para acontecer, existe simplesmente pelo contato de todos com todos. É universal sem totalidade.

Lévy (2000) conclui ainda que no ciberespaço, quanto mais universal, menos totalizante. Pois quanto mais nós se acrescentam à rede mundial, mais diversa ela fica, e mais distante ficamos da possibilidade de totalização.

Assim como a escrita inaugurou um paradigma de comunicação que se internalizou à cultura dominante, também o ciberespaço se desdobra no florescimento da chamada Cibercultura, fundada sobre três princípios: a interconexão de todos com todos, gerando um universal por contato, a criação de comunidades virtuais baseadas em afinidade de interesses e não mais mera casualidade geográfica, e a ascensão à Inteligência Coletiva, já que o objetivo de todo agrupamento é ser mais capaz de aprender e inventar do que é um simples indivíduo ou um coletivo descoordenado.



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