A Emergência da Produção Social
De Socialmedia.wiki.br
Hoje, informação, conhecimento e cultura são a base daquilo que chamamos de humanidade. São esses três elementos que constroem nosso ponto de vista sobre o mundo e nossas próprias vidas, e que condicionam nossa visão sobre o futuro. Mesmo tratando-se de algo tão valioso, há quase dois séculos o controle de tudo isso está concentrado nas mãos de poucas pessoas, que tratam a cultura com um bem de consumo, e a fabricam em escala industrial.
No entanto, nas últimas décadas, o avanço das tecnologias da informação vem possibilitando uma redistribuição do poder de produção de informação (BENKLER, 2006). E, como conseqüência, começamos a ver uma série de adaptações culturais, sociais e econômicas que tornam possíveis uma transformação radical no modo como construímos o ambiente informacional em que nos encontramos.
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A decadente indústria da informação e cultura
Enquanto corremos para assistir o novo blockbuster, nos grudamos no sofá diante da programação do horário nobre, e as rádios repetem incansavelmente a mesma meia dúzia de músicas da parada de sucessos, toda uma indústria trabalha incansável na fabricação dos próximos produtos de massa que mobilizarão multidões.
Um volume enorme de dinheiro é investido nesta indústria, e os investidores exigem o máximo de retorno. Por isso, para cada novo produto, não basta ser um sucesso, é preciso ser o megahit do ano. Se não for um estouro de bilheteria, é um fracasso total. O problema é que produzir um blockbuster não é exatamente o mesmo que produzir um bom filme. Para agradar a uma multidão de pessoas é preciso descer a um nível que todos compreendam. É claro que podem aparecer exceções, mas com tanto dinheiro em jogo, poucos arriscam fazer diferente.
A distribuição desses produtos gera uma batalha desleal por atenção. A disputa acontece no parco espaço de prateleira das lojas de disco e locadoras vídeo, nas breves 24 horas de programação dos rádios e TVs e nas salas cinema de cada cidade. Simplesmente não há espaço para todos os produtos. Ficam, pela lei do mercado, os mais lucrativos, aqueles que seguiram à risca todas as fórmulas de sucesso.
Anos e anos expandindo seus domínios, enfim a tirania do lucro conquistou sua última fronteira: a cultura de povos inteiros. Nossas memórias, imaginações e inconscientes foram colonizados. Tudo o que vemos, e nosso próprio ponto de vista não passam de um subproduto da indústria da informação e do espetáculo. Definimos nossas gerações em função dos produtos de massa que obtiveram maior sucesso de venda, são eles que compõem nossa experiência comum.
Porém, desde os anos 1990, as coisas não andam mais tão prósperas. Se observarmos com cuidado veremos que os grandes sucessos já não são tão grandes assim. Na indústria da música, por exemplo, a maioria dos 50 álbuns mais vendidos da história foram gravados nas décadas de 70 e 80, e nenhum deles nos últimos 5 anos (ANDERSON, 2006). Estatísticas muito parecidas se repetem com o cinema e a TV. O tempo do monopólio da mídia de massa está ficando para trás.
Escassez versus abundância
O que mudou? Para começar, a quantidade de opções.
As mudanças tecnológicas, sociais e de mercado expandiram violentamente nossas opções, libertando-nos da escassez de ofertas da cultura de massa para a explosão de abundância e diversidade cultural que vemos emergir hoje. Graças principalmente à internet, não estamos mais restritos ao top 10, nossas opções são virtualmente ilimitadas. Tudo está disponível. É um salto incrível em comparação há 20 anos atrás quando ainda éramos limitados ao “bom gosto” de editores e gerentes de distribuição.
O resultado é que cada vez mais pessoas estão indo além da mídia de massa genérica, e passando a consumir também publicações que atendem a seus interesses específicos. Na visão de Vin Crosbie (2005), não foram as pessoas que mudaram, elas sempre cultivaram em paralelo interesses genéricos e específicos, o que mudou foi a oferta de informação, antes restrita ao genérico, agora capaz de atender a ambos.
Isso não significa o fim da estrutura de poder que se criou nas últimas décadas em torno da comunicação de massa. Simplesmente indica que nossa cultura está se tornando uma mistura entre hits e nichos, instituições e indivíduos, profissionais e amadores. A cultura de massa se tornará menos massificada, e a cultura de nicho menos obscura.
Produção social e liberdade
Um efeito ainda mais poderoso do que a democratização do acesso a informação, é a democratização do poder de produção da informação.
As novas possibilidades para a produção e distribuição de informação, conhecimento e cultura trazidas pelos meios digitais aumentaram o papel social da produção independente, feita tanto por indivíduos quanto por redes organizadas em diferentes níveis de colaboração.
Essas novas práticas produtivas têm mostrado sucesso em diversas áreas como, por exemplo, desenvolvimento de softwares, jornalismo, jogos multiplayer online e o próprio design. O que revela o surgimento de um novo ambiente informacional, no qual indivíduos são livres para desempenhar um papel mais ativo na construção de sua própria cultura do que o que era possível na economia industrial da informação do século 20. (BENKLER, 2006)
Esta nova liberdade traz consigo uma grande promessa: como plataforma para uma melhor participação democrática, como meio para incentivar uma cultura mais crítica e auto-refletiva, e como um mecanismo para atingirmos melhorias no desenvolvimento humano em todos os sentidos.
Economia da informação em rede
Benkler (2006) aponta para o surgimento de uma nova economia global, resultado do avanço das mais avançadas economias do século passado, que construíram, paradoxalmente, um cenário que tira os interesses de mercado do centro de nossas sociedades daqui em diante.
A primeira transformação neste sentido foi a construção de uma economia centrada na produção de informação (ciência, softwares, serviços financeiros), cultura (cinema, música, jogos) e manipulação de símbolos (marcas, grifes, personagens) para comercialização delas em forma de produtos.
Junte-se a isso o desenvolvimento da Internet, um ambiente global de comunicação interconectado e altamente democrático, e temos então um cenário em que a produção e distribuição daquilo que é mais central para nossas economias, a informação, não está mais nas mãos das elites industriais, mas é agora o resultado da produção social e compartilhamento.
Essa reviravolta é eminente e não será impedida, já que o mercado, suposta vítima dos acontecimentos, não é uma organização coesa com objetivos estabelecidos, e sim um aglomerado de interesses individuais e imediatos que automaticamente se adéquam às novas condições e aprendem obter lucro dentro delas. Teorias como a da Cauda Longa explicam como a produção social é economicamente viável e comercialmente interessante.
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